Hemograma e bioquímica: pesquisa revela que maioria dos Cirurgiões-Dentistas raramente solicita esses exames e tem dificuldade para interpretá-los

Apesar de terem autorização legal para solicitar exames complementares desde 2002, a maioria dos Cirurgiões-Dentistas ainda recorre pouco a exames laboratoriais no dia a dia clínico — e apresenta dificuldades na interpretação dos resultados. É o que revela estudo publicado em 2026 no Brazilian Dental Science, periódico da Universidade Estadual Paulista (UNESP), conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A pesquisa avaliou 279 Cirurgiões-Dentistas de Minas Gerais por meio de questionário eletrônico estruturado. O perfil da amostra é de profissionais qualificados: 77,2% com especialização e 70,9% que realizam procedimentos invasivos. Ainda assim, os dados evidenciam uma distância relevante entre o conhecimento declarado e a prática clínica. Embora 76,5% afirmem saber quando solicitar hemograma ou exames bioquímicos, 66,3% relatam não saber quais exames pedir para avaliar a função hepática e renal do paciente. Na prática, 58,3% raramente solicitam esses exames e, diante de manifestações bucais sem diagnóstico sistêmico estabelecido, apenas 41,2% recorrem à investigação laboratorial.

Na avaliação objetiva de conhecimento, 55,2% obtiveram pontuação considerada fraca, 29,4% desempenho médio e apenas 15,4% atingiram nível bom. Os autores apontam que esses déficits podem refletir formação insuficiente em medicina laboratorial durante a graduação, insegurança na interpretação dos resultados e barreiras logísticas na rotina clínica. O estudo também alerta que a omissão de exames clinicamente indicados pode configurar negligência profissional quando há nexo causal com dano ao paciente.

Os achados reforçam a necessidade de atuação de conselhos regionais, universidades e entidades de classe na qualificação da formação e da prática clínica, com impacto direto na segurança do paciente e na condução dos tratamentos.

O artigo está disponível em acesso aberto: https://doi.org/10.4322/bds.2026.e4875

Informações: APCD.org