A relação entre saúde bucal e doenças que atingem outras partes do organismo continua ganhando espaço na ciência. Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Odontologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) trouxe novas evidências sobre a possível participação de bactérias encontradas na cavidade oral no câncer colorretal.
O trabalho integra uma tese de doutorado e resultou na publicação de dois artigos em periódicos científicos internacionais. Os pesquisadores analisaram especialmente microrganismos que normalmente habitam a boca, mas que também têm sido identificados em outros locais do organismo.
Entre eles está a bactéria Fusobacterium nucleatum, já investigada internacionalmente por sua possível relação com tumores colorretais.
Bactérias da boca podem chegar a outras regiões
A cavidade oral abriga uma comunidade extremamente diversa de microrganismos. Em condições normais, muitos deles convivem em equilíbrio com o organismo.
Alterações nesse equilíbrio, entretanto, podem favorecer doenças bucais e têm levado pesquisadores a investigar possíveis repercussões sistêmicas.
Um dos pontos estudados é justamente como microrganismos originalmente associados à boca poderiam alcançar outras regiões do organismo.
A presença de bactérias orais em tecidos tumorais não significa, por si só, que elas sejam responsáveis pelo surgimento do câncer. Os estudos procuram compreender se esses microrganismos podem participar do ambiente que favorece a progressão da doença ou se sua presença é consequência de outras alterações.
Estudo avaliou interação entre bactérias
Na pesquisa da UFMA, os cientistas também avaliaram a interação entre diferentes espécies bacterianas.
Os resultados indicaram que a associação entre determinados microrganismos pode influenciar características relacionadas à formação de biofilmes e ao comportamento bacteriano.
Esse tipo de investigação é importante porque, na natureza, bactérias raramente vivem de maneira completamente isolada. Elas formam comunidades complexas e podem modificar seu comportamento dependendo dos outros microrganismos presentes.
Compreender essas interações pode ajudar a ciência a identificar futuramente novos marcadores e mecanismos envolvidos em determinadas doenças.
Saúde bucal não está isolada do organismo
A pesquisa reforça uma mudança importante na forma como a Odontologia vem sendo estudada.
Durante muito tempo, doenças da cavidade oral foram analisadas predominantemente de maneira localizada. Atualmente, diferentes linhas de pesquisa investigam as possíveis relações entre microbiota bucal, inflamação e doenças sistêmicas.
Doença periodontal, diabetes, doenças cardiovasculares e alterações neurodegenerativas estão entre os campos que vêm sendo estudados.
Isso não significa que problemas odontológicos sejam necessariamente responsáveis pelo desenvolvimento dessas doenças. Associação científica não deve ser confundida com relação comprovada de causa e efeito.
Pesquisa ainda precisa avançar
Os próprios pesquisadores destacam que os resultados representam mais um passo na compreensão da relação entre microbiota oral e câncer colorretal.
Ainda são necessários novos estudos para esclarecer os mecanismos envolvidos e determinar qual é a relevância clínica dessas descobertas.
Para a Odontologia, entretanto, o trabalho demonstra novamente que a boca não deve ser considerada uma estrutura independente do restante do organismo.
A manutenção da saúde bucal continua tendo como objetivos principais prevenir cárie, doença periodontal, perda dentária e outras condições orais, mas pesquisas como essa mostram que compreender o microbioma da boca pode também contribuir para o conhecimento de processos que acontecem em outras partes do corpo.