Hipoclorito, EDTA ou clorexidina? Diretrizes científicas esclarecem o que realmente funciona na irrigação endodôntica

Evidências clínicas reforçam a importância da irrigação química no tratamento de canal e apontam cuidados na escolha das soluções, concentrações e técnicas de ativação.

A irrigação dos canais radiculares continua sendo uma das etapas fundamentais para o sucesso do tratamento endodôntico. Embora os sistemas mecanizados de instrumentação tenham evoluído significativamente, a complexidade anatômica dos canais impede que o preparo mecânico alcance todas as superfícies internas.

Nesse cenário, a utilização de soluções químicas desempenha papel essencial na redução da carga microbiana, na dissolução de tecidos orgânicos e na remoção de resíduos produzidos durante a instrumentação.

Entretanto, uma questão permanece relevante na prática clínica: qual solução irrigadora oferece os melhores resultados e até que ponto o aumento da concentração ou a utilização de sistemas de ativação melhora o prognóstico?

As diretrizes da European Society of Endodontology (ESE), publicadas em 2023 e discutidas em uma análise científica de 2025 no British Dental Journal, apresentam recomendações baseadas em evidências para o tratamento de dentes permanentes com periodontite apical.

Hipoclorito de sódio permanece como principal solução irrigadora

O hipoclorito de sódio (NaOCl) continua sendo uma das soluções mais utilizadas na Endodontia devido à sua capacidade antimicrobiana e de dissolução de tecidos orgânicos.

Segundo as diretrizes europeias, concentrações entre 1% e 5,25% podem ser consideradas em protocolos de irrigação de dentes permanentes com periodontite apical assintomática.

Entretanto, a escolha da concentração exige atenção ao equilíbrio entre atividade antimicrobiana, capacidade de dissolução tecidual e segurança.

Concentrações mais elevadas podem apresentar maior atividade química, mas também aumentam o potencial de danos quando ocorre extrusão da solução para os tecidos periapicais.

Por isso, a eficácia não deve ser analisada apenas pela concentração utilizada, mas pelo conjunto do protocolo clínico.

EDTA desempenha função complementar

O ácido etilenodiaminotetracético, conhecido como EDTA, é utilizado principalmente para auxiliar na remoção da camada de resíduos formada durante a instrumentação, denominada smear layer.

Essa camada contém componentes orgânicos e inorgânicos e pode dificultar o acesso das soluções irrigadoras a determinadas regiões da dentina.

Enquanto o hipoclorito apresenta capacidade de dissolução de matéria orgânica, o EDTA atua sobre os componentes minerais da camada residual.

A combinação sequencial dessas soluções pode favorecer a limpeza das paredes dos canais radiculares.

As diretrizes da ESE consideram a possibilidade de utilização de hipoclorito de sódio, seguido de EDTA e de uma etapa final com hipoclorito.

Contudo, a qualidade da evidência disponível para alguns desfechos clínicos, como dor pós-operatória e reparo radiográfico, ainda é considerada muito baixa.

Clorexidina pode substituir o hipoclorito?

A clorexidina apresenta atividade antimicrobiana e pode ser considerada em situações clínicas específicas.

Entretanto, diferentemente do hipoclorito de sódio, ela não possui capacidade significativa de dissolução dos tecidos orgânicos presentes no sistema de canais radiculares.

Essa limitação impede que seja considerada uma substituta equivalente em todas as etapas do preparo químico-mecânico.

Outro cuidado envolve a incompatibilidade química entre clorexidina e hipoclorito.

O contato direto entre as soluções pode produzir precipitados indesejáveis, razão pela qual sua utilização sequencial exige protocolos que evitem a mistura.

A seleção das substâncias deve considerar suas propriedades químicas, limitações e indicações clínicas.

Ativação ultrassônica realmente melhora os resultados?

A utilização de sistemas ultrassônicos, sônicos e outras tecnologias de ativação tem despertado interesse na Endodontia contemporânea.

Esses recursos buscam melhorar a movimentação das soluções irrigadoras e ampliar seu contato com áreas de difícil acesso.

Estudos laboratoriais demonstram benefícios em determinados parâmetros de limpeza e desorganização de biofilmes.

Entretanto, os resultados laboratoriais não representam necessariamente uma melhora comprovada no prognóstico clínico.

As diretrizes europeias identificaram evidências insuficientes para demonstrar superioridade consistente de métodos auxiliares, incluindo ativação ultrassônica passiva, em relação à irrigação convencional com seringa e agulha, considerando desfechos como dor pós-operatória e reparo periapical.

Isso não significa que a ativação ultrassônica seja ineficaz, mas que seus benefícios adicionais sobre os resultados clínicos ainda precisam ser demonstrados por pesquisas de maior qualidade.

Segurança durante a irrigação é indispensável

Independentemente da solução escolhida, a prevenção da extrusão apical deve fazer parte do planejamento endodôntico.

Entre os cuidados recomendados estão o isolamento absoluto, a utilização de agulhas apropriadas, a irrigação sem pressão excessiva e a prevenção do travamento da agulha no interior do canal.

O profissional também deve considerar a anatomia radicular, a presença de reabsorções, perfurações e outras condições que possam aumentar o risco de extravasamento.

A extrusão de hipoclorito para os tecidos periapicais pode provocar acidentes químicos com dor intensa, edema e lesões teciduais.

O reconhecimento precoce dessas intercorrências e a adoção de condutas adequadas são fundamentais para a segurança do paciente.

Evidência científica deve orientar os protocolos

A evolução da Endodontia oferece diferentes possibilidades de instrumentação, irrigação e ativação química.

Entretanto, as diretrizes reforçam que a incorporação de novas técnicas deve considerar resultados clínicos demonstrados, segurança e custo-benefício.

A escolha do protocolo irrigador precisa ser individualizada, respeitando o diagnóstico, as características anatômicas e as condições clínicas de cada paciente.

Mais do que utilizar a maior concentração ou a tecnologia mais recente, o objetivo é alcançar desinfecção adequada com o menor risco possível.

A atualização científica permanente continua sendo uma ferramenta indispensável para a previsibilidade dos tratamentos endodônticos.

 

Referências científicas: