Anvisa alerta para riscos de tratamentos odontológicos vendidos pela internet

Produtos anunciados em redes sociais e marketplaces podem causar danos à saúde bucal quando utilizados sem avaliação e acompanhamento profissional

A facilidade para comprar produtos pela internet também chegou ao universo da Odontologia. Nas redes sociais e em marketplaces, é possível encontrar desde materiais anunciados para aplicação doméstica até produtos destinados ao clareamento dental. Diante do crescimento desse mercado informal, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, em 30 de julho de 2026, um alerta sobre os riscos associados ao uso inadequado desses produtos.

A orientação chama a atenção para uma questão que interessa diretamente aos cirurgiões-dentistas: nem todo produto comercializado on-line está regularizado para a finalidade anunciada, e determinados materiais exigem conhecimento técnico para serem utilizados com segurança.

Entre os exemplos citados pela Agência estão os chamados “dentes de resina” vendidos para manipulação doméstica e produtos destinados ao clareamento dental.

Facetas e dentes de resina exigem atenção

Um dos pontos destacados pela Anvisa é a comercialização de materiais de resina anunciados para que o próprio consumidor faça a moldagem e aplicação em casa.

Segundo a Agência, nenhum dente de resina destinado a esse tipo de manipulação doméstica foi aprovado para uso por pessoas sem formação profissional.

O problema não está apenas no resultado estético. A aplicação inadequada pode alterar a mordida e interferir no funcionamento da articulação temporomandibular (ATM). Também existem riscos relacionados à contaminação, queimaduras e contato com resíduos potencialmente tóxicos.

Outro aspecto relevante é a possibilidade de o material ficar mal adaptado aos dentes. Uma alteração aparentemente pequena na oclusão pode modificar a distribuição das forças durante a mastigação e provocar desconforto ou problemas nos tecidos de suporte.

A situação demonstra por que procedimentos odontológicos não podem ser tratados como simples aplicações estéticas feitas em casa.

Clareamento dental também possui regras

O alerta da Anvisa também aborda os produtos utilizados para clareamento dental.

A regulamentação diferencia os produtos de acordo com a concentração de peróxido de hidrogênio. Cremes dentais com concentração de até 0,1% são enquadrados como cosméticos. Já produtos com concentração superior a esse limite são classificados como dispositivos médicos e precisam atender aos requisitos estabelecidos pela regulamentação sanitária.

Há ainda uma exigência específica para produtos com concentração superior a 3% de peróxido de hidrogênio: eles estão sujeitos à prescrição por profissional habilitado, mediante receita simples, e a dispensação deve ocorrer com a apresentação da receita.

A embalagem também precisa informar a concentração da substância e, nos casos aplicáveis, apresentar a indicação de venda sob prescrição.

O risco não está apenas no produto

Um dos principais pontos para os profissionais de Odontologia é compreender que a segurança não depende exclusivamente da composição do produto.

O diagnóstico correto, a indicação adequada, a avaliação das condições bucais e o acompanhamento profissional fazem parte do tratamento.

No caso do clareamento, por exemplo, o paciente pode apresentar cáries, restaurações deficientes, retrações gengivais, lesões cervicais ou outras condições que precisam ser identificadas antes da realização do procedimento.

A utilização indiscriminada de produtos clareadores pode provocar sensibilidade e irritação gengival. Em concentrações mais elevadas e quando utilizados incorretamente, os riscos podem incluir queimaduras, alteração da superfície do esmalte e até danos aos tecidos dentários.

Redes sociais ampliaram o desafio

A popularização das redes sociais modificou a maneira como os pacientes buscam informações sobre tratamentos odontológicos.

Vídeos curtos, anúncios com resultados instantâneos e depoimentos de consumidores podem transmitir a impressão de que determinados procedimentos são simples e seguros para qualquer pessoa.

Nesse cenário, o cirurgião-dentista também assume um papel importante na educação em saúde.

Mais do que realizar o tratamento, o profissional pode ajudar o paciente a identificar informações enganosas, explicar os riscos da automedicação e orientar sobre a importância de verificar a regularização dos produtos.

Como verificar se um produto é regularizado

A Anvisa orienta que produtos regularizados apresentem na embalagem o número de notificação ou registro correspondente.

A Agência disponibiliza sistemas de consulta para que consumidores e profissionais possam verificar a situação de cosméticos, dispositivos médicos e empresas fabricantes ou importadoras.

Essa verificação é especialmente importante diante do crescimento de anúncios em plataformas digitais.

Um produto estar disponível para compra em um marketplace não significa, por si só, que esteja regularizado para utilização odontológica.

Papel do cirurgião-dentista ganha ainda mais importância

Para a Odontologia, o alerta reforça uma questão fundamental: tratamentos odontológicos não devem ser reduzidos à aquisição de produtos.

A avaliação profissional é necessária para identificar indicações, contraindicações, riscos e alternativas terapêuticas.

A Anvisa recomenda que a população procure atendimento com cirurgiões-dentistas, profissionais legalmente habilitados para avaliar cada situação e indicar tratamentos de acordo com as necessidades do paciente.

O avanço do comércio digital trouxe novas possibilidades de acesso, mas também aumentou a responsabilidade de profissionais e pacientes na identificação de produtos seguros e devidamente regularizados.

Para a Odontologia, o desafio passa a ser também combater a banalização de procedimentos clínicos e reforçar que saúde bucal exige diagnóstico, planejamento e acompanhamento.

O que o profissional deve observar

  • Verificar a regularização sanitária dos produtos utilizados;
  • orientar pacientes sobre os riscos de tratamentos caseiros;
  • explicar as limitações de produtos vendidos pela internet;
  • registrar adequadamente as orientações fornecidas ao paciente;
  • acompanhar as atualizações regulatórias da Anvisa;
  • evitar a indicação de produtos sem procedência ou regularização sanitária.

A publicação da Anvisa reforça que a busca por um sorriso esteticamente mais agradável não pode colocar em segundo plano a saúde dos dentes, da gengiva e das estruturas que sustentam a função mastigatória.