Crise internacional de insumos ameaça fluoretação da água e mobiliza entidades de saúde em São Paulo

CROSP, FSP-USP e Centro de Vigilância Sanitária discutem alternativas para preservar uma das principais políticas públicas de prevenção da cárie no Brasil

A manutenção da fluoretação da água de abastecimento público entrou no radar das autoridades sanitárias de São Paulo diante de dificuldades internacionais relacionadas ao fornecimento de ácido fluossilícico, um dos compostos utilizados no processo de fluoretação.

O alerta foi divulgado pelo Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) em 24 de agosto de 2026. Segundo a entidade, companhias de saneamento vêm relatando dificuldades para adquirir o insumo, situação relacionada a instabilidades nas cadeias internacionais de produção e distribuição de matérias-primas.

Diante do cenário, o CROSP encaminhou ofício ao ministro da Saúde e ao coordenador-geral de Saúde Bucal do Ministério da Saúde reforçando a importância da continuidade da fluoretação como política pública de prevenção em saúde bucal.

A discussão também envolve a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e o Centro de Vigilância Sanitária.

Por que a fluoretação é importante?

A adição controlada de flúor à água de abastecimento é considerada uma das principais estratégias coletivas de prevenção da cárie dentária.

Diferentemente de ações individuais, como escovação e uso de creme dental fluoretado, a fluoretação alcança a população por meio do sistema público de abastecimento.

Isso significa que pessoas de diferentes condições socioeconômicas podem ser beneficiadas pela medida.

A estratégia tem importância especialmente em regiões onde o acesso regular a serviços odontológicos e produtos de higiene bucal pode ser mais limitado.

Um problema que ultrapassa a Odontologia

A dificuldade atual não está relacionada à eficácia da fluoretação, mas à disponibilidade do insumo utilizado pelas companhias de saneamento.

De acordo com o CROSP, a redução na oferta do ácido fluossilícico está relacionada a um cenário internacional de instabilidade no fornecimento de matérias-primas.

Entre os fatores apontados estão conflitos geopolíticos e impactos sobre cadeias de produção e distribuição de fertilizantes fosfatados, que possuem relação com a fabricação dos compostos utilizados na fluoretação.

Dessa forma, um problema inicialmente associado à cadeia internacional de suprimentos pode acabar produzindo consequências para uma política pública de saúde dentro dos municípios brasileiros.

Entidades buscam alternativas

Diante do cenário, o CROSP passou a participar de discussões com instituições ligadas à saúde pública para avaliar alternativas capazes de preservar a continuidade da fluoretação.

A preocupação é evitar interrupções no abastecimento do insumo e, consequentemente, possíveis períodos sem a concentração adequada de flúor na água distribuída à população.

A atuação conjunta com a FSP-USP e o Centro de Vigilância Sanitária busca justamente ampliar a discussão técnica e avaliar possíveis caminhos diante da instabilidade do mercado internacional.

Impacto pode ser maior nas populações vulneráveis

A eventual redução da cobertura da fluoretação pode ter consequências mais relevantes entre grupos socialmente vulneráveis.

A saúde bucal é diretamente influenciada por fatores econômicos, educacionais e de acesso aos serviços de saúde.

Por isso, políticas coletivas de prevenção possuem papel importante na redução das desigualdades.

Quando a população tem acesso à água fluoretada, a prevenção não depende exclusivamente da capacidade individual de adquirir produtos ou procurar regularmente atendimento odontológico.

Fluoretação precisa ser acompanhada tecnicamente

A manutenção da política também exige controle rigoroso da concentração de flúor na água.

O objetivo não é simplesmente adicionar a substância ao abastecimento, mas manter níveis adequados dentro dos parâmetros sanitários estabelecidos.

Esse monitoramento é fundamental para garantir que a população receba os benefícios esperados da fluoretação dentro de condições consideradas seguras.

Por isso, eventuais mudanças no fornecedor, no produto utilizado ou no processo de tratamento precisam ser acompanhadas pelas autoridades responsáveis.

Papel estratégico da Odontologia

O episódio evidencia uma dimensão importante da atuação dos cirurgiões-dentistas: a participação na formulação e defesa de políticas públicas de prevenção.

A Odontologia não se limita ao atendimento realizado dentro dos consultórios.

Profissionais da área também participam de programas de saúde coletiva, vigilância epidemiológica, educação em saúde e planejamento de políticas públicas.

Nesse contexto, o debate sobre a fluoretação reforça a importância da participação técnica da categoria nas decisões relacionadas ao abastecimento de água e à prevenção das doenças bucais.

Cenário internacional exige planejamento

A dificuldade de fornecimento do ácido fluossilícico também mostra como políticas públicas podem ser afetadas por fatores externos.

Conflitos internacionais, problemas logísticos, restrições comerciais e alterações na disponibilidade de matérias-primas podem interferir diretamente na cadeia de fornecimento de produtos essenciais.

Para as autoridades, isso aumenta a importância do planejamento, da diversificação de fornecedores e da avaliação antecipada de possíveis riscos de desabastecimento.

Prevenção continua sendo o foco

Ao defender a manutenção da fluoretação, o CROSP reforça uma estratégia que tem como principal objetivo reduzir a ocorrência de cáries e ampliar a proteção da população.

A entidade considera fundamental que eventuais dificuldades de fornecimento sejam enfrentadas sem comprometer a continuidade da política pública.

O assunto deverá continuar sendo acompanhado pelas entidades odontológicas e pelas autoridades sanitárias, especialmente diante da instabilidade internacional que afeta a cadeia de produção do insumo.

Para a Odontologia, o episódio serve também como lembrete de que a prevenção da cárie depende de uma combinação de estratégias individuais e coletivas — e que políticas públicas de alcance populacional continuam desempenhando papel central na promoção da saúde bucal.

Informações:CROSP – Conselho Regional de Odontologia de São Paulo