Medicamentos biológicos na cadeira do Cirurgião-Dentista: o que é preciso saber

Os medicamentos biológicos que são anticorpos monoclonais usados no tratamento de doenças autoimunes, oncológicas e doenças ósseas, estão cada vez mais presentes nos consultórios odontológicos. Não porque o Cirurgião-Dentista os prescreva, mas porque os pacientes chegam à cadeira em uso dessas terapias, e o profissional precisa saber como essa informação impacta o atendimento. O problema é que, na maioria dos casos, a formação não preparou para isso.

O que são?

De acordo com a Profa. Dra. Ana Daniela Spínola da Silva, mestre em Estomatologia e docente em Farmacologia da Faculdade de Odontologia da APCD (FAOA), antes de explicar o que são medicamentos biológicos é importante salientar que eles não têm nenhuma relação com a chamada “odontologia biológica”, que é uma abordagem sem qualquer embasamento científico. “Os biológicos são fármacos produzidos por biotecnologia, ou seja, moléculas complexas derivadas de organismos vivos, com aprovação regulatória e extensa literatura científica”, define.

Também estomatologista, a Profa. Dra. Daniele Coelho Dourado, doutora em Odontologia, pós-graduada em Farmacologia, professora efetiva da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e presidente da ABCD/Seção Bahia, explica que esse grupo inclui anticorpos monoclonais como adalimumabe, infliximabe, rituximabe, pembrolizumabe, nivolumabe, denosumabe e trastuzumabe — amplamente utilizados no tratamento de artrite reumatoide, osteopenia, mieloma múltiplo, psoríase, doença de Crohn, lúpus e diferentes tipos de câncer. “O mecanismo de ação desse grupo farmacológico é bem mais seletivo e direcionado, como a ação em citocinas específicas (anti-TNF, anti-interleucinas, anti-integrinas, inibidores de IL-17 e IL-23), receptores ou células-alvo do sistema imune (anti-RANKL), diferentemente dos fármacos imunossupressores tradicionais”, afirma.

O que muda na clínica

Para a Dra. Ana Daniela, a interferência dos biológicos no atendimento odontológico não se dá pelo uso da medicação em si, mas pelo que cada tipo pode acarretar ao organismo. O paciente com doença autoimune em uso de biológico terá a resposta imunológica suprimida, com maior risco de desenvolver infecções oportunistas em cavidade bucal, complicações pós-procedimentos invasivos, cicatrização mais lenta e menor capacidade de defesa contra microrganismos. No paciente oncológico sob bioterapia, somam-se a esse quadro alterações no funcionamento das glândulas salivares. Já no paciente em uso de biológicos ou antirreabsortivos com impacto no metabolismo ósseo — como o denosumabe —, a principal atenção deve recair sobre o risco de osteonecrose dos maxilares. “Em todos os casos, nossa atenção com biossegurança e a capacidade da avaliação de risco se torna a principal aliada, somada ao cuidado com possíveis interações medicamentosas e a um acompanhamento atencioso e próximo do caso”, conclui.

A Dra. Daniele amplia esse mapeamento. Além do maior risco de infecções oportunistas e das complicações pós-exodontias e cirurgias, ressalta a ocorrência de lesões em tecidos moles — mucosite, sangramentos e ulcerações orais — e alterações em tecidos duros, como a osteonecrose dos maxilares relacionada a medicamentos (MRONJ) e a osteomielite.

A anamnese como ferramenta central

A Dra. Ana Daniela destaca que a anamnese detalhada e rigorosa é fator primordial para o sucesso do atendimento de qualquer paciente, e ainda mais quando há alterações sistêmicas envolvidas. “A Odontologia sempre exige uma investigação criteriosa do paciente que será atendido, feita pelo próprio cirurgião dentista, que é o único profissional que saberá conduzir isso de forma adequada”, afirma. A complexidade aumenta quando se trata de biológicos: “É comum o paciente não saber o nome da medicação que faz uso, menos ainda ter ideia de que sua medicação pode afetar o sistema estomatognático de forma direta ou indireta.” Cabe ao profissional, portanto, direcionar as perguntas de forma inteligível e estar atento a sinais e sintomas que, passando despercebidos pelo paciente, podem ser cruciais para o diagnóstico e o tratamento corretos.

“Conversa de forma descontraída, informal e leve, somados ao conhecimento do profissional podem mudar o rumo do atendimento”, avalia. Ela pondera que não há problema em o profissional não conhecer determinado biomedicamento ou seu mecanismo de ação, “o problema é seguir o planejamento sem buscar na literatura científica informações que lhe dê embasamento para executar o atendimento com segurança para o executor e o paciente.”

O esperado, segundo a Dra. Ana Daniela, é que todo profissional se mantenha atualizado sobre condições sistêmicas e o universo farmacológico, realize um exame clínico criterioso e veja cada paciente de forma individual e integralizada. E que, por essa perspectiva, não deveria haver mudanças na conduta ao atender esses pacientes. Mas ela reconhece que a realidade impõe um passo a mais: “é necessário que busquemos novas informações e referências, para que consigamos entender o paciente e seu caso clínico, onde na maioria das vezes será necessário lançar mão da interdisciplinaridade para obtenção do sucesso.”

Uma lacuna que precisa ser preenchida

Publicado em abril de 2026 no British Dental Journal, um artigo de pesquisadores de Sri Lanka, Tailândia e Hong Kong defende que os biológicos precisam ser incluídos obrigatoriamente no currículo de farmacologia dos cursos de Odontologia. A avaliação encontra eco na realidade brasileira. Para a Dra. Daniele, o problema é urgente: “Os clínicos gerais já atendem rotineiramente pacientes em uso de terapias biológicas e o desconhecimento sobre esses medicamentos pode comprometer a segurança do tratamento odontológico.”

“Apesar de, no Brasil, algumas faculdades de Odontologia já abordarem imunobiológicos em disciplinas de Farmacologia, Patologia, Estomatologia ou Cirurgia Bucomaxilofacial, isso ainda ocorre de forma heterogênea e geralmente superficial, com pouca ênfase em imunoterapia, oncologia molecular e farmacologia dos biológicos”, destaca. Para ela, os cursos de Odontologia no Brasil ainda não preparam plenamente o Cirurgião-Dentista para atender pacientes em uso desses medicamentos. “Há uma necessidade urgente de atualização curricular para incorporar imunologia clínica, terapias biológicas, farmacovigilância e manejo interdisciplinar desses pacientes à formação odontológica contemporânea”, conclui.

A Dra. Ana Daniela lembra que os biológicos circulam no mercado desde 2000, mas ainda figuram como tema ausente ou marginal na formação odontológica. Diante disso, ambas convergem para a mesma conclusão: o caminho mais seguro para o paciente passa pela Odontologia preventiva, pelo atendimento multidisciplinar e pelo modelo de cuidado compartilhado com o médico prescritor. Para o Cirurgião-Dentista, a atualização contínua não é um diferencial, mas uma condição para o exercício seguro da profissão.

Por Swellyn França

Informações:APCD Central