O envelhecimento da população brasileira está colocando a Odontogeriatria diante de novos desafios. Um estudo apresentado na 43ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica (SBPqO), realizada neste mês em São Paulo, avaliou as condições de saúde bucal de idosos residentes em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs).
A pesquisa foi realizada em Goiânia e envolveu idosos atendidos em 18 instituições. A coleta de dados ocorreu entre setembro de 2025 e abril de 2026 e incluiu entrevistas, análise de prontuários e exames clínicos.
O trabalho chama atenção para um grupo que pode apresentar dificuldades específicas para receber acompanhamento odontológico regular.
Envelhecer não significa necessariamente perder os dentes
A perda dentária ainda é frequentemente encarada como uma consequência natural da idade.
Essa percepção, entretanto, é equivocada.
O envelhecimento provoca mudanças no organismo e pode aumentar determinados desafios relacionados à saúde, mas a perda dos dentes está associada principalmente ao histórico de doenças bucais, acesso ao tratamento, hábitos e condições sociais acumuladas durante a vida.
Cárie e doença periodontal continuam entre importantes causas da perda dentária.
Por isso, uma das mudanças de paradigma da Odontologia contemporânea é justamente trabalhar para que as pessoas envelheçam preservando o maior número possível de dentes naturais e, consequentemente, sua capacidade mastigatória.
Idosos institucionalizados exigem atenção específica
Pessoas que vivem em instituições de longa permanência podem apresentar condições que tornam os cuidados bucais mais complexos.
Limitações motoras, comprometimento cognitivo, utilização de diversos medicamentos e doenças crônicas podem dificultar a realização adequada da higiene bucal.
Em alguns casos, o próprio idoso deixa de conseguir escovar os dentes ou higienizar uma prótese sozinho.
Nessas situações, cuidadores passam a exercer papel fundamental.
Por isso, protocolos de saúde bucal dentro dessas instituições precisam envolver não somente o cirurgião-dentista, mas também profissionais de enfermagem, cuidadores, familiares e demais integrantes da equipe responsável pelo idoso.
Boca influencia alimentação e qualidade de vida
A saúde bucal na terceira idade vai muito além da estética.
Dentes naturais, próteses adequadamente adaptadas e tecidos bucais saudáveis têm relação direta com a capacidade de mastigar e escolher alimentos.
Dor, dentes comprometidos e próteses mal adaptadas podem dificultar a alimentação e fazer com que o idoso evite determinados alimentos.
Também podem surgir dificuldades de fala, desconforto, lesões e impacto na convivência social.
Por isso, a avaliação odontológica precisa fazer parte de uma visão mais ampla do envelhecimento saudável.
Brasil precisa se preparar para uma população mais velha
O crescimento da população idosa tende a aumentar a demanda por profissionais preparados para atender pacientes com condições clínicas cada vez mais complexas.
Na Odontologia, isso significa ampliar conhecimentos sobre medicamentos, doenças crônicas, limitações funcionais, próteses, implantes e atendimento de pacientes com perda de autonomia.
Também significa abandonar definitivamente a ideia de que chegar à velhice sem dentes é algo inevitável.
A preservação da função bucal deve fazer parte do planejamento para um envelhecimento com mais autonomia, alimentação adequada e qualidade de vida.