Quando a boca dá o alerta: dentistas ajudam a reconhecer sinais de alterações na tireoide

A tireoide é uma glândula pequena, localizada na parte anterior do pescoço, mas seu impacto no organismo é amplo: regula o metabolismo, influencia o sistema imunológico e participa do equilíbrio hormonal do corpo todo. Quando seu funcionamento se altera — para mais ou para menos —, as consequências aparecem em vários sistemas. Entre eles, a cavidade bucal.

As disfunções tireoidianas estão entre os distúrbios endócrinos mais comuns, e muitos casos permanecem sem diagnóstico por longos períodos. Dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) apontam que o hipotireoidismo é a disfunção mais frequente da glândula e afeta entre 8% e 12% dos brasileiros.

De acordo com a endocrinologista Dra. Luciana Oharomari, formada pela Universidade de São Paulo e especialista em obesidade, diabetes, tireoide e menopausa, “as disfunções da tireoide, como o hipotireoidismo e o hipertireoidismo, podem interferir significativamente na saúde bucal, especialmente na mucosa bucal e nos tecidos periodontais.”

Nesse cenário, alterações que se manifestam na boca ganham relevância: muitas vezes, são percebidas antes mesmo dos sintomas gerais que costumam levar o paciente ao médico. E o Cirurgião-Dentista está entre os profissionais que podem identificar essas pistas precocemente, frequentemente durante consultas de rotina.

Reconhecer essas manifestações em casa não significa fechar um diagnóstico – apenas o profissional habilitado pode avaliar o quadro com precisão e, quando necessário, encaminhar o paciente para investigação médica. Mas observar o próprio corpo é o primeiro passo para um cuidado integral.

Sinais na boca que merecem atenção

A literatura científica descreve uma série de manifestações bucais associadas tanto ao hipotireoidismo (produção insuficiente de hormônios) quanto ao hipertireoidismo (produção em excesso). Entre as mais frequentemente relatadas estão:

Boca seca persistente (xerostomia). A sensação contínua de boca seca, mesmo com ingestão adequada de água, pode estar associada a disfunções tireoidianas e a outros fatores, como uso de medicamentos e doenças autoimunes relacionadas. Além do desconforto, a redução do fluxo salivar favorece cárie, mau hálito e infecções na mucosa.

Sangramento gengival e gengivas inflamadas. Alguns estudos apontam maior prevalência e severidade de doença periodontal em pacientes com alterações tireoidianas. Gengivas que sangram com facilidade, ficam avermelhadas ou inchadas e não melhoram mesmo com escovação adequada merecem avaliação odontológica.

Língua aumentada (macroglossia). O hipotireoidismo pode levar ao aumento de volume da língua, podendo apresentar marcas dentárias nas bordas laterais.

Ardência ou queimação na boca. A sensação de ardência oral sem causa aparente também pode estar relacionada a alterações hormonais e metabólicas, incluindo disfunções tireoidianas.

Alterações no paladar (disgeusia). Mudança persistente no sabor dos alimentos, gosto metálico ou perda de sensibilidade gustativa também são descritos na literatura.

Cicatrização lenta após procedimentos. Em casos de hipotireoidismo gravemente descompensado, o reparo tecidual após extrações, cirurgias ou pequenas lesões na boca pode ser mais demorado. Alterações leves do TSH, no entanto, não contraindicam procedimentos odontológicos. A decisão deve considerar sempre o risco-benefício e a urgência clínica.

Alterações no desenvolvimento dentário em crianças. Tanto o atraso quanto a antecipação da erupção dentária podem estar associados a alterações hormonais tireoidianas — o hipotireoidismo tende a retardar a erupção, enquanto o hipertireoidismo pode acelerá-la. Mudanças no esmalte e no crescimento dos maxilares são sinais avaliados pelo odontopediatra com atenção redobrada quando há suspeita de disfunção endócrina.

O papel do Cirurgião-Dentista

Nenhuma dessas alterações, isoladamente, confirma uma disfunção da tireoide. Boca seca pode ter dezenas de causas; gengiva inflamada pode refletir higiene insuficiente; queimação na boca pode estar associada a outras condições. Mas quando um ou mais desses sinais persistem, recidivam ou não respondem aos cuidados habituais, vale buscar avaliação.

A identificação precoce dessas alterações favorece o diagnóstico e o encaminhamento adequado. Como ressaltou a Dra. Luciana na mesma reportagem, “diante de lesões orais persistentes, recidivantes ou de etiologia indefinida, especialmente na presença de outros sinais sistêmicos, a investigação da função tireoidiana deve ser considerada como parte da abordagem diagnóstica interdisciplinar.”

Essa atuação em rede — em que dentista e médico se comunicam — é o que sustenta o cuidado integral. Manter consultas odontológicas regulares, relatar mudanças na boca durante a anamnese e informar ao Cirurgião-Dentista o uso de medicamentos para tireoide são atitudes simples e fundamentais. A boca, muitas vezes, é a primeira a falar.

Com informações da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM)

Informações:APCD Central