Remover toda a cárie pode não ser a melhor escolha: diretriz científica muda abordagem em lesões profundas

Recomendações internacionais favorecem técnicas conservadoras para reduzir exposições pulpares e destacam o desempenho dos cimentos à base de silicato de cálcio em tratamentos de preservação da vitalidade.

A remoção completa do tecido cariado, tradicionalmente associada ao preparo cavitário, vem sendo reavaliada à luz das evidências científicas. Em dentes permanentes com lesões profundas, a tentativa de remover toda a dentina amolecida pode aumentar o risco de exposição pulpar e comprometer a possibilidade de preservar a vitalidade do dente.

Uma diretriz clínica internacional de nível S3, desenvolvida em conjunto pela European Federation of Conservative Dentistry (EFCD), European Society of Endodontology (ESE) e European Organisation for Caries Research (ORCA), reúne recomendações sobre remoção de cárie, proteção pulpar e seleção de biomateriais.

O documento, desenvolvido a partir de revisões sistemáticas e consenso científico, favorece abordagens menos invasivas em situações clínicas selecionadas.

Remoção seletiva ou remoção completa?

Uma das principais recomendações envolve a remoção seletiva do tecido cariado.

Em lesões profundas de dentes permanentes sem sintomas ou com sinais compatíveis com pulpite reversível, a diretriz sugere a remoção seletiva até dentina amolecida na região próxima à polpa, em vez da escavação não seletiva até dentina dura.

O objetivo é reduzir a probabilidade de exposição pulpar desnecessária.

Isso não significa deixar tecido cariado indiscriminadamente na cavidade. A técnica exige avaliação da profundidade da lesão, remoção adequada nas regiões periféricas e obtenção de um selamento restaurador efetivo.

A decisão depende também da possibilidade de controlar a atividade da lesão e garantir a longevidade da restauração.

Tratamento em etapas continua sendo uma alternativa

Outra estratégia analisada é a remoção gradual, conhecida como stepwise excavation.

Nesse procedimento, a remoção inicial é conservadora, seguida de selamento temporário e posterior reavaliação, quando indicada.

A diretriz também favorece essa abordagem em relação à remoção não seletiva nas condições clínicas estudadas.

Entretanto, a escolha entre remoção seletiva em sessão única e tratamento em etapas deve considerar as características do caso, a idade do paciente, o diagnóstico pulpar e a possibilidade de acompanhamento.

Cimentos biocerâmicos ganham destaque

A atualização científica também aborda os materiais utilizados no capeamento pulpar direto e na pulpotomia.

Os cimentos hidráulicos à base de silicato de cálcio, como os materiais da família do MTA e outros produtos biocerâmicos apropriados, apresentaram resultados clínicos superiores aos do hidróxido de cálcio em determinadas aplicações de terapia pulpar vital.

Esses materiais são valorizados por suas propriedades biológicas e pela capacidade de favorecer a formação de barreiras mineralizadas.

A diretriz recomenda sua preferência em procedimentos de capeamento pulpar e pulpotomia quando clinicamente indicados.

Pulpotomia pode ser alternativa ao tratamento endodôntico convencional?

Outro ponto relevante é a possibilidade de preservar parte da polpa mesmo em situações anteriormente associadas à indicação de pulpectomia.

Em dentes permanentes com exposição pulpar e sinais compatíveis com pulpite irreversível, a diretriz considera a pulpotomia parcial ou total uma alternativa em casos selecionados.

A indicação exige diagnóstico criterioso, avaliação das condições intraoperatórias, controle do sangramento e utilização de materiais adequados.

Isso não significa que todo dente com pulpite irreversível possa ser tratado por pulpotomia.

A presença de necrose, condições infecciosas específicas, impossibilidade de controle adequado e fatores restauradores podem modificar o planejamento.

Evidências ainda apresentam limitações

Apesar das recomendações favoráveis às abordagens conservadoras, a qualidade das evidências varia de muito baixa a moderada, dependendo do procedimento e do resultado analisado.

Os autores destacam a necessidade de estudos adicionais, especialmente em lesões extremamente profundas e no acompanhamento de longo prazo.

Para os cirurgiões-dentistas, a principal mensagem é que a preservação pulpar deve ser considerada uma prioridade quando biologicamente possível.

O planejamento deve combinar diagnóstico, controle da doença cárie, selamento restaurador e acompanhamento clínico e radiográfico.

 

Referência científica: diretriz EFCD–ESE–ORCA, Deep Caries Management: S3-Level Clinical Practice Guideline, publicada em 2025/2026 e disponibilizada em periódicos científicos internacionais.