Pacientes que aguardam ou já passaram por um transplante de órgão precisam de atenção especial com a saúde bucal. Antes do procedimento, infecções odontológicas podem exigir tratamento e acompanhamento. Depois do transplante, medicamentos imunossupressores e as condições clínicas do paciente tornam o acompanhamento odontológico ainda mais importante.
O assunto ganhou destaque neste fim de semana em razão do Dia Nacional da Doação de Órgãos, celebrado em 27 de setembro.
Para o cirurgião-dentista, o atendimento desse grupo exige planejamento individualizado e, dependendo da condição do paciente, integração com a equipe médica responsável pelo transplante.
Avaliação começa antes do transplante
A avaliação odontológica realizada durante a preparação para um transplante procura identificar condições bucais que possam representar focos de infecção.
Entre os problemas que podem precisar de atenção estão doença periodontal ativa, abscessos, infecções endodônticas, cáries com comprometimento pulpar e dentes com prognóstico desfavorável.
Entretanto, a decisão sobre realizar determinado procedimento não depende exclusivamente da condição encontrada na boca.
O profissional precisa considerar a doença de base do paciente, medicamentos utilizados, exames laboratoriais, possibilidade de sangramento e, principalmente, o tempo disponível antes do transplante.
Por esse motivo, o atendimento deve ser individualizado.
Evidências exigem interpretação cuidadosa
Estudos vêm investigando se o tratamento de focos infecciosos odontológicos antes do transplante interfere diretamente nos resultados posteriores.
Uma revisão sistemática publicada em 2024 analisou nove estudos de coorte envolvendo 727 pacientes submetidos a transplantes de fígado, rim, coração ou pulmão.
Alguns trabalhos encontraram associação entre focos de infecção oral não tratados e determinadas complicações infecciosas.
Entretanto, os resultados não foram uniformes e os estudos não demonstraram redução significativa da mortalidade ou da rejeição do órgão exclusivamente em razão do tratamento odontológico prévio.
Isso reforça a importância de diferenciar associação de causalidade.
A avaliação odontológica continua sendo parte relevante do cuidado, mas as decisões precisam considerar a situação clínica completa do paciente.
Depois do transplante, cenário muda
Após o transplante, o paciente geralmente utiliza medicamentos imunossupressores para reduzir o risco de rejeição do órgão.
Essa nova condição pode modificar a resposta do organismo às infecções e também provocar manifestações na cavidade oral.
Entre as alterações descritas em pacientes transplantados estão doença periodontal, candidíase, boca seca, alterações da mucosa e aumento gengival relacionado ao uso de determinados medicamentos.
Ulcerações persistentes também precisam ser investigadas.
Por isso, conhecer todos os medicamentos utilizados pelo paciente é fundamental durante a anamnese odontológica.
Trabalho multidisciplinar ganha importância
O tratamento odontológico de um paciente transplantado não deve seguir automaticamente o mesmo protocolo adotado para um paciente saudável.
O órgão transplantado, o tempo transcorrido desde a cirurgia, os medicamentos utilizados e outras doenças existentes precisam ser considerados.
Em determinadas situações, a comunicação entre cirurgião-dentista e equipe médica torna-se necessária antes da realização de procedimentos.
A prevenção também assume papel importante.
Manter higiene bucal adequada e acompanhamento odontológico regular pode contribuir para reduzir problemas que posteriormente exigiriam tratamentos mais complexos.
Para o cirurgião-dentista, pacientes transplantados representam um exemplo claro de como a saúde bucal precisa ser analisada como parte da saúde geral e não de maneira isolada.