SUS avança na digitalização das próteses dentárias com scanners, impressoras 3D e novos fluxos de produção

Atualização pactuada pelo Ministério da Saúde prevê incorporação de tecnologias digitais aos Laboratórios Regionais de Próteses Dentárias e amplia estratégias de equidade no atendimento

A Odontologia Digital, que durante anos esteve concentrada principalmente em clínicas particulares e laboratórios especializados, começa a ganhar espaço também na rede pública brasileira.

Uma atualização pactuada na Comissão Intergestores Tripartite (CIT), apresentada pelo Ministério da Saúde em 15 de julho de 2026, prevê mudanças na organização da Rede de Atenção à Saúde Bucal e nos Laboratórios Regionais de Próteses Dentárias (LRPDs), incluindo a possibilidade de incorporação de scanners intraorais, impressoras 3D e softwares ao fluxo de produção de próteses do Sistema Único de Saúde (SUS).

A medida representa um avanço importante na aproximação entre tecnologia digital e saúde pública e pode modificar gradualmente a forma como próteses são planejadas, produzidas e entregues aos pacientes atendidos pelo Brasil Sorridente.

Tecnologia chega aos laboratórios do SUS

De acordo com o Ministério da Saúde, os laboratórios que incorporarem scanners intraorais, impressoras 3D e softwares poderão receber um acréscimo de 30% no valor mensal de custeio.

Também foram criados seis novos códigos específicos para procedimentos relacionados ao fluxo digital.

Na prática, isso cria condições para que a produção de próteses dentro da rede pública avance progressivamente de processos convencionais para modelos digitais.

A mudança pode envolver desde a captura das informações da boca do paciente até as etapas de planejamento e fabricação da prótese.

O que é o fluxo digital?

No modelo tradicional, a produção de uma prótese pode envolver moldagens físicas, modelos de gesso, transporte de materiais e diversas etapas laboratoriais.

Com o fluxo digital, o scanner intraoral permite registrar a anatomia da cavidade bucal e transformar essas informações em um arquivo tridimensional.

Esse arquivo pode ser utilizado por softwares de planejamento e posteriormente encaminhado para sistemas de fabricação, incluindo impressoras 3D.

O processo permite armazenar os arquivos digitalmente, facilitando sua transmissão, reprodução e utilização em diferentes etapas do tratamento.

Mais precisão e possibilidade de rastreamento

A digitalização também pode trazer ganhos relacionados à padronização dos processos.

Arquivos digitais podem ser armazenados e utilizados posteriormente, permitindo reproduzir modelos ou comparar diferentes etapas do tratamento.

Na produção de próteses, isso pode facilitar ajustes e comunicação entre profissionais responsáveis pelo atendimento clínico e técnicos envolvidos na etapa laboratorial.

É importante destacar, entretanto, que a tecnologia não elimina a necessidade de avaliação clínica. O planejamento continua dependendo da análise do cirurgião-dentista e das características individuais de cada paciente.

SUS já produz milhões de próteses

A dimensão da mudança fica mais clara quando observada a quantidade de pessoas atendidas pela rede pública.

Segundo o Ministério da Saúde, o SUS disponibiliza anualmente cerca de 1,2 milhão de próteses dentárias para a população.

A incorporação de tecnologias digitais em uma estrutura dessa dimensão pode representar uma mudança significativa no modelo de produção.

O objetivo não é simplesmente substituir equipamentos convencionais por máquinas digitais, mas criar um fluxo capaz de ampliar a eficiência e a qualidade da assistência.

Equidade também está entre as prioridades

A atualização anunciada pelo Ministério da Saúde não se limita à tecnologia.

A nova organização prevê incentivos relacionados à equidade, com atenção específica à oferta de próteses para povos e comunidades tradicionais e para pessoas em situação de rua.

A estratégia busca integrar inovação tecnológica à redução das desigualdades no acesso à saúde bucal.

Esse aspecto é especialmente relevante porque a reabilitação protética está diretamente relacionada à mastigação, fala, autoestima, convívio social e qualidade de vida.

Rede de Atenção à Saúde Bucal ganha novo desenho

Outra mudança importante é a formalização da Rede de Atenção à Saúde Bucal (RASB) dentro da Rede de Atenção à Saúde do SUS.

Segundo o Ministério da Saúde, a nova organização reforça o cuidado centrado na pessoa, na família e na comunidade e amplia a integração entre promoção da saúde, vigilância, atenção primária e serviços especializados.

A estrutura contempla diferentes públicos e condições, incluindo crianças, adolescentes, adultos, idosos, pessoas com deficiência, pacientes oncológicos e pessoas que necessitam de reabilitação protética ou bucomaxilofacial.

Impacto para o cirurgião-dentista

Para os profissionais que atuam no serviço público, a digitalização poderá exigir novas competências.

O avanço dos scanners, softwares de planejamento e sistemas de fabricação digital tende a ampliar a necessidade de capacitação das equipes.

Além de aprender a utilizar os equipamentos, será necessário compreender os fluxos digitais, a qualidade dos arquivos, a integração entre diferentes sistemas e os critérios clínicos para utilização dessas ferramentas.

A transformação também poderá aproximar ainda mais o trabalho do cirurgião-dentista do técnico em prótese dentária, criando fluxos de comunicação mais rápidos e integrados.

Uma nova etapa para a Odontologia Digital

A incorporação da tecnologia ao SUS demonstra que a transformação digital da Odontologia não é mais uma tendência restrita ao setor privado.

Scanners intraorais, softwares e impressão 3D começam a fazer parte de políticas públicas de saúde bucal, criando novas possibilidades para a reabilitação de pacientes que dependem do sistema público.

Segundo os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, a rede conta atualmente com cerca de 34,5 mil equipes de Saúde Bucal na atenção primária, com capacidade de atendimento estimada em 105 milhões de brasileiros, além de aproximadamente 3 mil Laboratórios Regionais de Próteses Dentárias e 1,2 mil Centros de Especialidades Odontológicas.

O desafio agora será transformar a pactuação em implementação efetiva, garantindo infraestrutura, capacitação profissional e integração dos novos recursos aos serviços existentes.

Se esse processo avançar conforme planejado, a digitalização poderá representar uma das mudanças mais importantes da reabilitação protética no SUS nos próximos anos.